Pomar da minha mente

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Aqui,
curto minhas dores
encurto a distância
entre o “eu” exterior
e o “in” interior

Aqui,
sinto minhas flores
no jardim de minha frente
no pomar de minha mente

Aqui,
apago minhas chamas
no incêndio de minh’alma
no bálsamo pra minhas chagas

Aqui,
depuro minhas lágrimas
nos córregos de minha retina
nos igarapés de minhas artérias

Aqui,
sou um pouco para dentro
estou um pouco para fora
a mesma onda que chega, leva

Aqui,
como um mar imenso,
busco a costa 
pra sair da solidão

Aqui,
me encontro ora em marés altas,
ora me recolho em marés baixas,
aviso aos navegantes, acenda o farol

Aqui
buscando o porto
andando na plataforma torto
pra adentrar o barco do tempo

Aqui
ouço o eco abafado
do meu próprio silêncio
no ritmo da inspiração, da expiração

Aqui
trago o ar da existência
e canto a vida e a poesia
e mergulho na paz da escrita

Aqui
em meio a melancolia
levanto com as mãos a terra
do jardim e planto uma roseira

Aqui
em meio a tanta tristeza
ouço o chamado da brisa
não vejo, mas sinto o aroma

Aqui
nas rimas soltas
nas feridas expostas
nas chamas apagadas

Aqui
quem canta, não espanta
nem males, ou marés, 
somente canta porque ama

Aqui
este amor à natureza
da vida plena, não só de aparências 
dotada de uma certa humaneza

Aqui
me permito ousar
quiçá desafiar
regras, dogmas

Aqui
na busca da utopia
que re-nasce a cada dia
na raiz de uma dália

Aqui
sento-me ao banco
na sombra do arvoredo
em um cantinho do cerebelo.

Poema escrito em março de 2012, premiado com o segundo lugar no II Concurso Nacional de Poesias Narciso Araújo – 2014, em Marataízes, Espírito Santo.

Aquarela de verão

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Foi um despertar súbito,

antes do apito do relógio,

dia amanhecendo

e o sol pintando

 

Aguarela de cores

Entre os telhados dos lares

Do Méier, bairro onde moro

Que maravilha de cenário

 

Recordou-me o céu romano

em um despertar de Michelangelo

projetando raios coloridos nas ruínas

ao som dos sinos das igrejas

 

Poema escrito em 26-Fev-14, ao vislumbrar um belíssimo cenário do amanhecer no Méier, Rio de Janeiro, no início do verão de 2013.

 

Melancolia

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Decerto não foi apenas

uma angústia passageira,

dessas que brota,

como gota de sereno.

 

Havia uma melancolia,

que não se escondia,

por entre os sulcos

da face contraída.

 

A noite de penumbras,

o sono entrecortado,

entre ondas agitadas,

não dera descanso ao barco.

 

E agora, na manhã

que ainda espreguiça,

convocada a despertar,

antes da hora, o que dizer?

 

Como suportar este fardo

que se assenta no ombro?

Envergado feito vara de bambu

Em cacho no pé feito fruto de babaçu

 

E ainda que se dissipe

feito nuvem no agreste

esta surda melancolia

é ameaça de chuva que não vinga…

Poema introspectivo escrito em 26-Fev-14.

Todos os dias descubro… (Octávio Paz)

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Todos os dias descubro
A espantosa realidade das coisas:
Cada coisa é o que é.
Que difícil é dizer isto e dizer
Quanto me alegra e como me basta
Para ser completo, existir é suficiente.

Tenho escrito muitos poemas.
Claro, hei de escrever outros mais.
Cada poema meu diz o mesmo,
Cada poema meu é diferente,
Cada coisa é uma maneira distinta
de dizer o mesmo.

Às vezes olho uma pedra.
Não penso que ela sente
Não me empenho em chamá-la irmã.
Gosto porque não sente,

Gosto porque não tem parentesco comigo.
Outras vezes ouço passar o vento:
Vale a pena haver nascido
Só por ouvir passar o vento.

Não sei que pensarão os outros ao lerem isto
Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço;
O penso sem pensar que outros me ouvem pensar,
O penso sem pensamento,
O digo como o dizem minhas palavras.

Uma vez me chamaram poeta materialista.
E eu me surpreendi: nunca havia pensado
Que pudessem me dar este ou aquele nome.
Nem sequer sou poeta: vejo.

Se vale o que escrevo, não é valor meu.
O valor está aí, em meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade.

Octavio Paz (1914-1998), poeta mexicano, “Todos los días descubro…, según un poema de Fernando Pessoa.” (Tradução de Maria Teresa Almeida Pina).

Imagem: Nascer do sol diante do “mar de nuvens” das Montanhas de Wulingyuan, província de Hunan – China, Patrimônio da Humanidade.

Árvore adentro (Octávio Paz)

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Cresceu em minha fronte uma árvore.
Cresceu para dentro.

Suas raízes são veias,
nervos suas ramas,
Sua confusa folhagem pensamentos.

Teus olhares a acendem
e seus frutos de sombras
são laranjas de sangue,
são granadas de luz.

Amanhece
na noite do corpo.
Ali dentro, em minha fronte,
a árvore fala.

Aproxima-te. Ouves?

Octávio Paz (1914-1998), poeta mexicano, Nobel de Literatura, poema traduzido por Antônio Moura.

Vento, água e pedra (Octávio Paz)

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A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

Octávio Paz (1914-1998), poeta mexicano, Nobel de Literatura de 1990.

Imagem: “Os sete apóstolos”, falésias na Austrália.

De tudo quanto fui

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De tudo quanto fui,
Fui pouco do que sou,
Sou ainda menos do que serei

De tudo quanto deixei,
Deixei muito do que deixo,
Deixo ainda menos do que deixarei

De tudo quanto sonhei,
Sonhei pouco do que sonho,
Sonho ainda menos do que sonharei

De tudo quanto amei,
Amei muito do que amo,
Amo ainda menos do que amarei

De tudo quanto estive,
Estive pouco do que estou,
Estou ainda menos do que estarei

De tudo quanto caminhei,
Caminhei muito do que caminho,
Caminho ainda menos do que caminharei

De tudo quanto participei,
Partipei pouco do que participo
Participo ainda menos do que participarei

De tudo quanto perdoei,
Perdoei muito do que perdoo,
Perdoo ainda menos do que perdoarei

De tudo quanto levei,
Levei menos do que levo,
Levo ainda menos do que levarei

De tudo quanto busquei,
Busquei mais do que busco,
Busco ainda menos do que buscarei.

Poema introspectivo escrito em 25 de setembro de 2012.

Imagem: Pantanal de Mato Grosso, casal de Tuiutis próximo ao barco (Foto de AjAraujo tomada em junho de 2012).

O voo da gaivota

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O canto no vento ecoa
traz teu rastro, teu aroma
lição de vida, teu voo plaina
e desafia a lei da gravidade

És leve, flutuas no ar
e a natureza toda te emoldura
a configurar-te em uma tela celestial
na qual tu emerges assim tão bela

A liberdade está nos teus gestos
na tua luta por novas fronteiras
no perene desafio do viver
nos horizontes traçados por Deus!

Poema em homenagem a “Fernão Capelo Gaivota”, clássico de Richard Bach, escrito em Fevereiro de 1985.

Imagem: Voo de Gaivota no Crepúsculo.