Image

Aqui,
curto minhas dores
encurto a distância
entre o “eu” exterior
e o “in” interior

Aqui,
sinto minhas flores
no jardim de minha frente
no pomar de minha mente

Aqui,
apago minhas chamas
no incêndio de minh’alma
no bálsamo pra minhas chagas

Aqui,
depuro minhas lágrimas
nos córregos de minha retina
nos igarapés de minhas artérias

Aqui,
sou um pouco para dentro
estou um pouco para fora
a mesma onda que chega, leva

Aqui,
como um mar imenso,
busco a costa 
pra sair da solidão

Aqui,
me encontro ora em marés altas,
ora me recolho em marés baixas,
aviso aos navegantes, acenda o farol

Aqui
buscando o porto
andando na plataforma torto
pra adentrar o barco do tempo

Aqui
ouço o eco abafado
do meu próprio silêncio
no ritmo da inspiração, da expiração

Aqui
trago o ar da existência
e canto a vida e a poesia
e mergulho na paz da escrita

Aqui
em meio a melancolia
levanto com as mãos a terra
do jardim e planto uma roseira

Aqui
em meio a tanta tristeza
ouço o chamado da brisa
não vejo, mas sinto o aroma

Aqui
nas rimas soltas
nas feridas expostas
nas chamas apagadas

Aqui
quem canta, não espanta
nem males, ou marés, 
somente canta porque ama

Aqui
este amor à natureza
da vida plena, não só de aparências 
dotada de uma certa humaneza

Aqui
me permito ousar
quiçá desafiar
regras, dogmas

Aqui
na busca da utopia
que re-nasce a cada dia
na raiz de uma dália

Aqui
sento-me ao banco
na sombra do arvoredo
em um cantinho do cerebelo.

Poema escrito em março de 2012, premiado com o segundo lugar no II Concurso Nacional de Poesias Narciso Araújo – 2014, em Marataízes, Espírito Santo.

Anúncios