A inscrição no barco

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A praia estava vazia,
A maré era rasante,
Havia pequenas conchas
Como aquarela na areia.

O sol despontava morno
Era um dia de inverno
À noite se dissipara
Uma frente fria.

As dunas em movimento
em um ritmo de um adágio
O caminhante não se dá conta
Do tempo, sem relógio ou celular

Há muito não percebia
O quanto esse encontro
de terra e mar, de mar e ar
me propiciava paz de espírito

Na enseada da praia do foguete
– Me perdoem não sei o motivo do nome –
Encontrei um barco ancorado
E lá havia uma inscrição

“É melhor ser craque
no esporte, marujo
do que morrer afogado
no vício do crack”

Fiquei encantado
com esse pensamento
tão singular
quanto necessário

Época de tantas drogas
das noites de insônia
dos dias de penumbra
destes jovens qual zumbis

Que deitam-se nas esquinas
Se escondem sob os viadutos
enrolam-se no que encontram
e criam um mundo de ilusão e abandono.

Poema escrito em Cabo Frio – RJ, em 15-9-13.

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Ah, esses tempos esquizofrênicos!

O Grito

Sonhos tive,
e os tenho ainda.
Presságios tive
e os tenho ainda.

Sono já não tenho
e me atormenta o pesadelo.
Ouço vozes ao longe
Perdão! Não estou alucinando.

A insônia é fruto
de uma profunda inquietação
Ante ao grito acuado
que não cala a indignação.

Para onde vão?
Os que na pobreza estão?
De espírito, de alma
De infortúnio, de lama

Perdão! Não estou delirando.
São tempos esquizofrênicos
De tédio, vazio
De vilipêndio, dispêndio.

Noites se transformam
Em dias intermináveis
Vidas se transmutam
Em alegorias inconfessáveis

O que fazer dos sonhos
que já não mais se revestem de utopias?
O que fazer dos pesadelos
que já não mais se contam ao raiar dos dias?

Os barcos (Thiago de Mello)

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Os barcos nascem como nascem dores.
E chegam como pássaros ao céu,
como flores do chão. São mensageiros.
Vêm na crista dos astros, vêm de ventres
por onde rolam rastros de cantigas
de antigas barcarolas estaleiras.
Trazem na proa audácias e esperanças,
as cismas e os assombros nos porões.

A mão que os faz, humana, os não perfaz,
apenas segue, tímida, ao comando
de vozes nascituras que lhe chegam
da boca dos martelos e das ripas.
A si mesmos se fazem, pelo mando
de voz sem boca: os barcos são auroras.
Despejam-se na foz de águas escuras.
Contudo, chegam sempre de manhã.

Chegam antes, alguns. Outros são póstumos.
Há os que não chegam nunca: naufragaram
nas primícias do rio. Tantos mastros
se vergam na chegada, outros se racham.
Partem-se popas, lemes, em pelejas
imaginárias contra calmarias.
Uns são velozes, zarpam mal-chegados,
outros são lerdos, de hélices sem sonhos.

Há barcaças nascidas para as idas
ao oco dos mistérios, há as que trazem
lendas futuras presas ao convés,
as que guardam nos remos os roteiros
de grandes descobertas e as que vêm
para vingar galeras soçobradas.
Há as que já chegam velhas, sem navego.

O mar, sempre desperto, espreita e espera
a todos, e de todos se acrescenta.
Para barcos se fez o mar amargo
e fundo, sobretudo se fez verde.
O mar nem sempre os quer. O mar se tranca
frequentemente a barcos, e os roteiros
marítimos se encantam em lajedos,
estraçalhando quilhas e calados.

O coração das caravelas viaja
desfraldado nos mastros, invisível
bandeira também bússola. Altaneiro,
ele surpreende, quando manso, as rotas
que se desenham longe sobre o mar.
Sextante é o coração, que escuta estrelas,
que antes de erguer as âncoras demora-se
em concílio amoroso com os ventos.

O coração comanda. Manda e segue.
E, à sua voz, os barcos obedecem
e avançam, confiantes, pois dos mastros
as velas vão surgindo, vão crescendo
como cresce uma folha de palmeira,
às manobras da brisa sempre dóceis.
De caminhos de barcos sabe o mar.
Os ventos é que sabem dos destinos.

©Thiago de Mello, In, Poemas Preferidos pelo autor e seus leitores, 2001.

Imagem: Três barcos de pesca, de Claude Monet

A dívida

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Havia uma dúvida,
de quem seria a dívida?

Houve um silêncio sepulcral,
só quebrado pelo vento no varal,

Cada qual olhava para o chão,
como a procurar perdido botão,

Alguém preparara um café,
com xícaras de porcelana até.

O livro caixa estava aberto
e cada qual na mesa boquiaberto

Afinal havia uma dívida,
quem cobriria o buraco na herança?

Após muitas rodadas de discussão 
culparam o finado, conveniente solução

Levantaram-se todos a um só tempo
o inventariante fechou o livro preto

Após acontecerem terríveis pesadelos,
 decerto houve sentimentos de remorsos, 

No outro dia, o florista não entendia, 
porque tantas flores comprara aquela família

Enquanto isso, os coveiros riam à toa
Porque esse súbito humor à beira da cova?

Só o finado poderia explicar a razão
Mas – acredito – ele curtia feliz esta vazão

Mas afinal o que sucedera?
Que fato surreal acontecera?

O fim da história os leitores querem conhecer logo, 
Calma, pessoal! A dívida era apenas um rombo no bolso do terno…

Onde o finado colocara promissórias
Ao alcance dos coveiros para serem liquidadas

E aí, como souberam os coveiros?
Acho que a dúvida continua, pra você ajudar estes herdeiros.

Conto surreal escrito em 3 de junho de 2014.

 

Pão dormido, choro contido

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Havia sombras nos escombros
Havia fardos sobre os ombros
Sacos de cimento pesados, rasgados
E os dorsos doloridos, arqueados

de súbito, uma tontura
e um operário cai da altura
fica pendurado na grua
vida, por um fio, nada bela e…crua

acidente é sempre previsível
para quem é explorado e trabalha
horas a fio, inútil vigília, incansável
na luta pra repor o pão dormido da batalha

O poeta reflete sobre um acidente de trabalho que testemunhou.

 

Um forte desejo de mudança

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Não!
Não há mar bravio
Nem vento sul
Que me impeça …

Venha!
Que venha um temporal 
Um vendaval
Ainda assim não impedirá…

Brilhe!
Que o sol mais brilhe
E em desertos tórridos se faça a terra
Vivo continuará…

O desejo que este mundo mude
não somente nas estações, no tempo…

Poema escrito em novembro de 1977, focando as preocupações quanto a poluição ambiental.

Imagem: Poluição de um rio em Karachi, no Paquistão.

Turbulências outonais

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Pode ter vindo das galáxias
Ou ter surgido das falácias
Mas, o fato já se impõe
No boato que interpõe 

Na couraça que protege
Na vidraça que expõe
A dor que deveras sente
A flor que nega a semente

Seres humanos, cósmicos?
Ou simplesmente tórridos?
Consumindo-se (e sendo consumidos)
Por um tempo-rei que os faz escravos.

Poema escrito durante voo turbulento de João Pessoa para o Rio de Janeiro, em abril de 2009.

Imagem: Pintura de Salvador Dalí.

Germinal: o pulmão de pedra

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Tributo a Emile Zola

Prólogo: Os últimos sopros – história de um trabalhador vítima da silicose (pulmão de pedra)

Inspirou profundamente!
Sorvendo a brisa daquele eterno momento
e foi expirando lentamente,
livrando-se dos males e do tormento.

Seu vívido semblante
ante o olhar de espanto
de seus queridos entes,
pois, este poderia ser seu derradeiro canto,
um sopro para germinar sementes
nas lágrimas de pranto
derramadas por um homem honrado, santo.

Histórias de vida e pó: desde os escravos nas minhas greco-romanas.

Trabalhando, noite e dia,
sofrendo no fino pó que os encobriam
não tinham tempo, época ou história
martelavam como antes outros povos o fizeram

sonhavam em trazer da labuta, pão e vitória
mas, da rocha, pulmões de pedra herdavam
nas incansáveis e exaustivas jornadas sem alforria
na nascente e no poente, dormiam e acordavam

em um ciclo que se repetia em uma luta inglória
contra os abusos da exploração, tosse, dispneia,                                                     adoeciam abrindo fendas na mãe terra,
precocemente descem a serra,
e viram as páginas de sua própria estória…

Até quando continuarão morrendo os mineiros?

Tributo do médico e poeta aos trabalhadores de minas, pedreiras e artefatos de pedras e, particularmente a Emile Zola pela sensibilidade de sua obra: Germinal, interpretada no cinema por Gerard Depardieu. Poema escrito em março de 2000.

Imagem: Pedreira Armitage & Sons, em 1878 – Woodlesford, Inglaterra.

 

Poente & Nascente nunca se repetem

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A tarde se põe
E entre versos mesclados 
a mar e fantasia,

Componho o momento
em suaves notas musicais
como as ondas na arrebentação

Este verso que escorre
É como água a jorrar na fonte
É como lágrima a rolar da fronte

Esta rima que se lança
É como a brisa que passa
É como a tarde que o sol acalenta

Essa melancolia anuncia a tristeza 
É como se ter a certeza
De um nunca mais…

“Viva o teu dia como se fosse único,
a beleza de cada nascente e a transcendência 
de cada poente nunca se repetem.”

Poema escrito em dezembro de 1979.

Imagem: O nascer do sol no outono, em uma savana russa.